Paulo, o herege gnóstico?
Por Fábio T. C. dos Santos
Pode-se dizer, com certa perspicácia,
que muito dos ensinamentos presentes nas Cartas de Paulo convergem com o
pensamento soteriológico dos cristãos gnósticos. Tomemos como exemplo o tema dos
"mistérios do Reino dos céus" que aparece no âmago da Doutrina paulina.
De acordo com os gnósticos, o Salvador, além de seus ensinamentos morais, teria vindo
ao mundo para transmitir "secretamente
aos discípulos e aos apóstolos" uma doutrina de mistério que fosse divulgada "somente aos que (eles) julgassem
dignos e acreditassem neles". [1] Reza
uma tradição que Jesus, após sua ressureição, teria permanecido por 18 meses entre
os seus apóstolos e discípulos ensinando-lhes os mistérios ocultos do Reino de
Deus. [2]
Segundo os Evangelhos Canônicos, Jesus teria transmitido um conhecimento secreto aos seus apóstolos e discípulos, pois a estes foram dados "a conhecer os mistérios do Reino dos céus" [3]. Este "mistério" certamente tem a ver com aquilo que Paulo ensinava e, mais tarde, os gnósticos. Por exemplo, na Primeira Carta aos Coríntios Paulo fala de uma Sabedoria (Sophia) "misteriosa e oculta, que Deus predestinou desde a eternidade (aeon) para a nossa gloria". [4] Na Epístola aos Efésios, o autor revela que os eleitos em Cristo tornarão conhecedores dos "mistérios da sua vontade" por meio da sabedoria (Sophia) e prudência. [5] Na Epístola aos Colossenses é anunciado entre os gentios "o mistério que estivera oculto da eternidade (aeon) e das gerações; agora, todavia, se manifestou aos seus santos". [6] Mais adiante Paulo fala do pleno entendimento dos mistérios de Deus-Pai e de Cristo, no qual "todos os tesouros da sabedoria (Sophia) e conhecimento (gnósis) [estão] ocultos". [7] As palavras "sophia", "aeon" e gnósis" são, por excelência, as mais consagradas e importantes para os gnósticos.
Um escrito apócrifo presente na Biblioteca de Nag Hammadi descoberto em 1945 (escrito provavelmente no século II d.C.) chamado O Tratado Tripartido revela o seguinte pensamento com relação à busca do homem pelo Reino dos céus:
Quando confessamos o reino que está em Cristo, <nós> nos libertamos da multiplicidade plena das formas, e da desigualdade e mutação. A vontade do mal recebe uma existência unitária, assim como o princípio é unitário, onde não há masculino ou feminino, nem escravo e liberto, nem circuncisão e incircuncisão, nem anjo ou homem, mas Cristo que é tudo em tudo.[8]
O trecho acima expressa uma concepção análoga ao que Paulo ensina em Gálatas. O apóstolo declara que todos os que forem batizados em Cristo serão por ele revestido e, quando isso acontecer, não haverá mais "judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem macho e fêmea", porque todos nós seremos "um em Cristo Jesus". [9] Na Carta ao Colossenses é dito que o processo da renovação do homem velho se dará quando este se revestir do homem novo, segundo a imagem daquele que os criou, "no qual não pode haver grego e judeu, circuncisão e incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre; porém Cristo é tudo em todos". [10]
Existem várias outras fontes das quais o pensamento paulino se converge com o que se lê nos testos gnósticos. Parece que ambos estavam querendo expressar um tipo de Sabedora em comum. Os próprios Pais da Igreja primitiva nos confirmam que os hereges possuíam uma profunda admiração pelo apóstolo. [11] O meio acadêmico também está apto a concordar com tais pressupostos. O professor de teologia Robin Scroggs vê Paulo como um grande precursor de uma Doutrina secreta de mistérios, e diz ser inegável que o autor cristão possuía uma "sabedoria secreta". [12] O teólogo protestante alemão W. Schmithals, após investigar os componentes utilizados nas Cartas Paulinas admite haver nelas traços característicos dos utilizados pelos cristãos gnósticos. [13] Stephan A, Hoeller fala de Paulo "como um apóstolo gnóstico por excelência". [14] Em conclusão de seus estudos sobre o cristianismo primitivo, a professora Ph.D. pela Universidade de Harvard Elaine Pagels alega que Paulo é um "típico gnóstico" ficando à vontade para escrever um livro inteiro sobre o assunto. [15]
